Fragmentos InTemporais

Esculpido no tempo, o rosto da memória...

Fingir que está tudo bem





















Fotografia de Graça Loureiro
fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

Fragmento #4













Fotografia de Magda Marczewska
Podias ter-me dito que ias sair da minha vida. A paixão é mesmo isto, nunca sabemos quando acaba ou se transforma em amor, e eu sabia que a tua paixão não iria resistir à erosão do tempo, ao frio dos dias, ao vazio da cama, ao silêncio da distância. Há um tempo para acreditar, um tempo para viver e um tempo para desistir, e nós tivemos muita sorte porque vivemos todos esses tempos no modo certo. Podias ter-me dito que querias conjugar o verbo desistir. Demorei muito tempo a aceitar que, às vezes, desistir é o mesmo que vencer, sem travar batalhas. Antigamente pensava que não, que quem desiste perde sempre, que a subtracção é a arma mais cobarde dos amantes, e o silêncio a forma mais injusta de deixar fenecer os sonhos. Mas a vida ensinou-me o contrário. Hoje sei que desistir é apenas um caminho possível, às vezes o único que os homens conhecem. Contigo aprendi que o amor é uma força misteriosa e divina. Sei que também aprendeste muito comigo, mais do que imaginas e do que agora consegues alcançar. Só o tempo te vai dar tudo o que de mim guardaste, esse tempo que é uma caixa que se abre ao contrário: de um lado estás tu, e do outro estou eu, a ver-te sem te poder tocar, a abraçar-te todas as noites antes de adormeceres e a cada manhã ao acordares. Não sei quando te voltarei a ver ou a ter notícias tuas, mas sabes uma coisa? Já não me importo, porque guardei-te no meu coração antes de partires. Numa noite perfeita entre tantas outras, liguei o meu coração ao teu com um fio invisível e troquei uma parte da tua alma com a minha, enquanto dormias.
in "Vou contar-te m segredo"

El otro yo





















Fotografia de Hugo
Se trataba de un muchacho corriente: en los pantalones se le formaban rodilleras, leía historietas, hacía ruido cuando comía, se metía los dedos a la naríz, roncaba en la siesta, se llamaba Armando Corriente en todo menos en una cosa: tenía Otro Yo.

El Otro Yo usaba cierta poesía en la mirada, se enamoraba de las actrices, mentía cautelosamente , se emocionaba en los atardeceres. Al muchacho le preocupaba mucho su Otro Yo y le hacía sentirse imcómodo frente a sus amigos. Por otra parte el Otro Yo era melancólico, y debido a ello, Armando no podía ser tan vulgar como era su deseo.

Una tarde Armando llegó cansado del trabajo, se quitó los zapatos, movió lentamente los dedos de los pies y encendió la radio. En la radio estaba Mozart, pero el muchacho se durmió. Cuando despertó el Otro Yo lloraba con desconsuelo. En el primer momento, el muchacho no supo que hacer, pero después se rehizo e insultó concienzudamente al Otro Yo. Este no dijo nada, pero a la mañama siguiente se habia suicidado.

Al principio la muerte del Otro Yo fue un rudo golpe para el pobre Armando, pero enseguida pensó que ahora sí podría ser enteramente vulgar. Ese pensamiento lo reconfortó.

Sólo llevaba cinco días de luto, cuando salió la calle con el proposito de lucir su nueva y completa vulgaridad. Desde lejos vio que se acercaban sus amigos. Eso le lleno de felicidad e inmediatamente estalló en risotadas . Sin embargo, cuando pasaron junto a él, ellos no notaron su presencia. Para peor de males, el muchacho alcanzó a escuchar que comentaban: «Pobre Armando. Y pensar que parecía tan fuerte y saludable».

El muchacho no tuvo más remedio que dejar de reír y, al mismo tiempo, sintió a la altura del esternón un ahogo que se parecía bastante a la nostalgia. Pero no pudo sentir auténtica melancolía, porque toda la melancolía se la había llevado el Otro Yo.

Prazer em ouvir #1


Eu perco o chão
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste
Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim...

Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será
Que você está agora?...
Fotografia de Graça Loureiro
Música - 'Metade' por Adriana Calcanhoto

Fragmento #3














o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

Um único momento















Fotografia de Pedro Pais
Achamos que a vida é uma sonata
que começa com o nascimento
e deve terminar com a vellhice.
Mas isso está errado.
Vivemos no tempo, é bem verdade.
Mas, é a eternidade que dá sentido à vida.
Eternidade não é o tempo sem fim.
Tempo sem fim é insurportável.
Eternidade é o tempo completo,
esse tempo do qual a gente diz:
"Valeu a pena".

Compreendi, então, que a vida é uma sonata que,
para realizar a sua beleza, tem que ser tocada até o fim.
Dei-me conta, ao contrário,
de que a vida é um álbum de minissonatas.
Cada momento de beleza vivido e amado,
por efêmero que seja,
é uma experiência completa
que está destinada à eternidade.
Um único momento de beleza e amor
justifica a VIDA inteira.

Fragmento #2


















Fotografia de Graça Loureiro
Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral de horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome – essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.

Retrato






















Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?

... sei lá de quê!
















O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angustia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa; sou antes uma exaltada, com alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade... sei lá de quê!

De olhar por esta janela





















Fotografia de José Luis Gonçalves
De olhar por esta janela este céu de cidade...
De cidade, digo eu... Este céu, sem traço de vida, sem cor, sem uma silhueta de terra nem de árvores, extraordinariamente esbranquiçado...
De o olhar só, me vem uma grande opressão! Sinto-me perdida num infinito apagado, e incapaz de toda a fixação.
Como somos difíceis de conquistar! Julgamo-nos às vezes a pisar terra firme, a conhecer os lugares e as pessoas, e basta uma impressão destas, um nada, para nos abater. Não é saudade que sinto, é desapego, é falta de segurança.

Sentimentos

















Fotografia de Litinha
Somos donos de nossos atos,
mas não donos de nossos sentimentos.
Somos culpados pelo que fazemos
mas não somos culpados pelo que sentimos.
Podemos prometer atos,
mas não podemos prometer sentimentos.
Atos são pássaros enjaulados,
sentimentos são pássaros em vôo!

Fragmento #1















Fotografia de Gonçalo Afonso Dias
se me perguntares por
que fugi, talvez te diga
que os dias contados para trás tão depressa
fazem doer o coração e
apenas acrescentam
a incomparável morte das
palavras não mais proferidas

“Revolução da Alma” no ano 360 a.C.














Fotografia de DDiArte
Ninguém é dono de sua felicidade, por isso: não entregue sua alegria, sua paz e sua vida nas mãos de ninguém, absolutamente ninguém!
Somos livres, não pertencemos a ninguém e não podemos querer ser donos dos desejos, das vontades ou dos sonhos de quem quer que seja.
A razão da sua vida é você mesmo. A sua paz interior é a sua meta de vida.
Quando sentir um vazio na alma, quando acreditar que ainda está faltando algo, mesmo tendo tudo, remeta seu pensamento para os seus desejos mais íntimos e busque a divindade que existe em você.
Pare de colocar sua felicidade cada dia mais distante de você. Não coloque objetivos longe demais de suas mãos, abrace os que estão ao seu alcance hoje.
Se anda desesperado por problemas financeiros, amorosos ou de relacionamentos familiares, busque em seu interior a resposta para acalmar-se.
Você é reflexo do que pensa diariamente.
Sorrir significa aprovar, aceitar, felicitar. Então abra um sorriso para aprovar o mundo que quer oferecer a você o melhor.
Com um sorriso no rosto as pessoas terão as melhores impressões de você, e você estará afirmando para você mesmo, que está "pronto“ para ser feliz.
Trabalhe, trabalhe muito a seu favor. Pare de esperar a felicidade sem esforços. Pare de exigir das pessoas aquilo que nem você conquistou ainda.
Critique menos, trabalhe mais. E, não se esqueça nunca de agradecer. Agradeça tudo que está em sua vida neste momento, inclusive a dor. Nossa compreensão do universo ainda é muito pequena para julgar o que quer que seja na nossa vida.
A grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las.
Se você anda repetindo muito: “eu preciso tanto de você” ou, “você é a razão da minha vida” - cuide-se.
É lícito afirmar que são prósperos os povos cuja legislação se deve aos filósofos.
A inteligência é a insolência educada. Nosso caráter é o resultado de nossa conduta.
Egoísmo não é amor, mas sim, uma desvairada paixão por nós próprios.
O homem sábio não busca o prazer, mas a libertação das preocupações e sofrimentos.
Ser feliz é ser auto-suficiente...
Seja senhor de sua vontade e escravo da sua consciência.

Prazer em Ver # 1






















Fotografia de Litinha
O lugar da vida não é o lugar da história.
Num passa-se o mistério.
Noutro corrige-se a realidade.
Agustina Bessa-Luís

A vida é feita num qualquer lugar, porque na realidade,
o lugar da vida, é a vida enquanto arte,
transportada num olhar das imagens do lugar, para o eterno e imaginário real.
Alice Valente Alves

Se alguém disser


















Fotografia de Graça Loureiro
se alguém te disser que morri, avança até à varanda do céu,
escuta a noite e recolhe o meu corpo da espuma dos planetas.
não deixes que o meu rosto se dissolva nas tuas mãos,
insiste no meu nome até que o mar ascenda à tua boca.
e de luar em luar celebra o coração que fiz teu, mudamente,
como se o amor fosse sobreviver às veias paradas de sangue

Prazer em Recordar # 1


















Fotografia de Carla Salgueiro
Put your head on my shoulder
Hold me in your arms, baby
Squeeze me also tight, show me
That you love me too

Put your lips next to mine, dear
Won't you kiss me once, baby
Just a kiss good night, maybe
You and I will fall in love

O rosto da memória


















Fotografia de Antonio Gabriele Toppi
Era um silêncio transparente
Cortante como um cristal de arestas afiadas
Usei-o como escopro e,
Lentamente, fui esculpindo no tempo o rosto da memória

A tempestade do destino














Fotografia de Graça Loureiro
Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar.
in 'Kafka à Beira-Mar'

Sem palavras


















Fotografia de Graça Loureiro
Às vezes faltam-me as palavras certas... Ou, talvez, elas nem existam...
Palavras e gestos nutrem-se de silêncios...

Aquele amor

















Fotografia de DDiArte
Ela pertence à espécie de mulheres que possuem um só amor em toda a sua vida. Ou amam de verdade apenas uma vez. Seria espécie de mulheres ou a maioria assim o é, mesmo sem o saber?

Também há homens de eterno amor, embora o machismo e as deformações de sua cultura e comportamento nem sempre os convença de tal. Ou não convença a maioria. Ou será que o fato de serem colocadores de semente por determinismo biológico os leva a não prestar a devida atenção à sua destinação para o amor?

No meio da conversa ela diz, de repente, que só gostou de verdade de um homem e eis que vai buscar lá entre papéis amassados, daqueles que esturricam o couro das carteiras, não um mas três retratos dele, que espalha, qual cartas de baralho, sobre a mesa do restaurante. E fala dele com a mistura de ternura e tristeza que assaltam as mulheres que não lograram viver com o seu amor, casar-se com ele, ter seus filhos, viver em função dele e dela, unidos, pois esta é a verdadeira vontade e destinação da mulher: viver ao lado do verdadeiro amor.

Sim, elas vivem de modo proibido se necessário, casam-se com outro, têm filhos, os amam fundamente, mas a verdade de seu ser é a do amor verdadeiro, até porque mulher vive para amar e por amor, o resto se ajeita. Podem até deixar seu amor dormitar por anos e parecer serenado. Volta, porém a qualquer apelo ou menção do nome dele, encontro fortuito na rua com um conhecido dos tempos do namoro ou da relação.

Como são comoventes e lindas na sua integralidade bíblica as mulheres quando expressam para os demais ou para si mesmas, o amor de suas vidas ou quando consultam, escondido, os retratos guardados, recortes, flores secas, a memória úmida das restantes lembranças em momentos de silêncio e solidão!

Abençoados sejam, porque são, os homens e as mulheres que na passagem por esta vida receberam um dia de alguém, ou deram, um amor único, original e definitivo. Abençoados sejam e para todo o sempre. Como o amor que existe apesar de todas as ternas e dolorosas circunstâncias que não impedem a sua verdade mas em muitos casos esmagam a sua plena realização.

Às vezes...






















Fotografia de Paulo César
Às vezes é preciso aprender a perder, a ouvir e não responder, a falar sem nada dizer, a esconder o que mais queremos mostrar, dar sem receber, sem cobrar, sem reclamar. Às vezes, é preciso partir antes do tempo, dizer aquilo que mais se teme dizer, arrumar a casa e a cabeça, limpar a alma. Às vezes, mais vale desistir do que insistir, esquecer do que querer. No ar ficará para sempre a dúvida se fizemos bem, mas pelo menos temos a paz de ter feito aquilo que devia ser feito, somos outra vez donos da nossa vida. Às vezes, é preciso abrir a janela e jogar tudo borda fora, queimar cartas e fotografias, esquecer a voz e o cheiro, as mãos e a cor da pele, apagar a memória sem medo de a perder para sempre, esquecer tudo, cada momento, cada minuto, cada passo e cada palavra, cada promessa e cada desilusão, atirar com tudo para dentro de uma gaveta e deitar fora a chave. Porque quem parte é quem sabe para onde vai, quem escolhe o seu caminho, mesmo que não haja caminho, porque o caminho se faz a andar. O sol, o vento o céu e o cheiro do mar são os nossos guias, a única companhia, a certeza que fizemos bem e que não podia ser de outra maneira. Quem fica, fica a ver, a pensar, a meditar, a lembrar. Até se conformar e um dia então, esquecer.
As Crónicas da Margarida,(texto com supressões)

Caligrafia na pele






















Fotografia de Karina Bertoncini
Os dedos com que me tocaste
Persistem sob a pele, onde a memória os move.

Silêncios
















Fotografia de Graça Loureiro
Omitir, mentir e silenciar são atitudes comportamentais que têm que ser analisadas em separado e com conhecimento do respectivo contexto.
Se omites, silencias-te e obviamente estás a mentir!... Parece-me uma ilação prematuramente radical e assenta tão-só numa suposição.
Nem sempre quem omite ou se cala, está a mentir!... mas, como não sou apologista de cogitações sobre o que ainda é uma suspeita, opto pelo diálogo... obrigatoriamente, “doa a quem doer”!...
Abomino silêncios deliberados e manipuladores (há muito disto hoje em dia, lamentavelmente!...) e defendo, unicamente, o necessário ao reajuste do nosso eu!... muito haveria a falar sobre silêncios!...

Reflexo do outro eu...




















Fotografia de Graça Loureiro
Em frente ao Vert-Galant, eu dominava a ilha. Sentia subir em mim um vasto sentimento de força, e, como direi?, de plenitude, que me dilatava o coração. Ergui a cabeça e ia acender um cigarro, o cigarro da satisfação, quando, no mesmo momento, estalou um riso atrás de mim. Surpreendido, voltei-me bruscamente: não havia ninguém. Virei-me para a ilha e de novo ouvi o riso pelas minhas costas, um pouco mais distante... Fiquei ali, imóvel. O riso diminuía, mas eu ouvia-o ainda distintamente por detrás de mim, vindo de parte nenhuma... este riso nada tinha de misterioso; era um riso bom, natural, quase amigável, que repunha as coisas no seu lugar... em casa, dirigi-me à casa de banho para beber um copo de água. A minha imagem sorria ao espelho, mas pareceu-me que o meu sorriso era dúbio... afinal, quem sou eu?”

A certa altura, um dia, na hora menos pensada, ouvimos o “grito”, aquele que vem de dentro de nós, aquele que nos chama à razão...

Jeito de vestir





















Fotografia de Graça Loureiro
Gosto do "colete" que uso... foi escolhido por mim!...
Também gosto de presentes mas, no que à roupa diz respeito prefiro ser eu a escolher... não quero, não gosto, não deixo que outros interfiram no meu jeito de vestir!...
Não sou de modas, também!... faço a minha moda!... é ela que me define, que faz de mim aquela que sou eu...
Às vezes ajusto-o demasiado... julgo ser capaz e auto-suficiente para suportar tão imensa pressão mas, é pura e inconsciente distorção da realidade que me rodeia...
Sufoco!... Sufoco, vítima da minha descabida convicção na utópica perfeição...
Mas, se quero (e quero!...) continuar a respirar, atenuo o cordel que o ata, o suficiente para voltar a enxergar as cores e não o preto e branco, nefasto resultado da minha teimosia em querer que tudo tenha, obrigatoriamente um único lugar sem cedências nem tolerâncias...
Tive uma outra vida... e nela quase (quase!...) que estagnei a circulação sanguínea, fruto da minha obstinação em apertá-lo tanto, moldando-o ao meu corpo, achando-me desta forma mais confortável... estava errada!... mas, foi uma opção!... ou, talvez não!...
Hoje, sinto-me numa nova vida... e nesta, optei por um novo visual...
Talvez... Talvez até me favoreça a roupa menos justa!...
E, nesta pequena vida que é o dia de hoje, afrouxo o "colete"... quero respirar!... inspirar e expirar livremente, sem repressões, ao sabor das minhas necessidades, dos meus desejos...

Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse















Fotografia de Luis Mendonça
Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse
ou se ao menos me desses as mãos como quem beija
e não partisses, assim, empurrando o vento
com o coração aflito, sufocado de segredos
...
se ao menos tivesses levado as minhas mãos para tocar os teus dedos
para guardar o teu corpo
...
se ao menos tivesses quebrado o riso frio dos espelhos
onde o teu rosto se esconde no meu rosto
e a minha boca lembra a tua despedida,
talvez que, hoje, meu amor, eu pudesse esquecer
essa cor perdida nos teus olhos

Assim me habituei a morrer sem ti






















Fotografia de Mariah
mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior dessa ânfora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração

Momentos que se estendem no tempo...




















Fotografia de Rui V.
Às vezes a luz quase... quase se apaga...

Facilidade aparente
















Fotografia de Pedro Noel da Luz
É o abismo, a queda inevitável.
Já nada se tem para dizer uns aos outros. Ninguém fala. É o silêncio. Já ninguém se admira, ninguém se incomoda por causa disso. O silêncio de afeição e comunhão é geral. Já ninguém se importa. É assim.
Pelo contrário e curiosamente há uma espécie de facilidade de viver, de brincar a isso:
... a viver.

Across The Universe















Fotografia de Marta Ferreira

Words are flowing out like endless rain in to a paper cup,
They slither while they pass, they slip away across the universe
Pools of sorrow, waves of joy are drifting through my open mind,
Possessing and caressing me.

Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world...

Recomeçar
















Fotografia de Marta Ferreira
Recomeça... se puderes, sem angústia e sem pressa e os passos que deres, nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade, enquanto não alcances não descanses, de nenhum fruto queiras só metade.

O tempo que nos resta...






















Fotografia de Litinha
De súbito sabemos que é já tarde. Quando a luz se faz outra, quando os ramos da árvore que somos soltam folhas e o sangue que tínhamos não arde como ardia, sabemos que viemos e que vamos. Que não será aqui a nossa festa.
De súbito chegamos a saber que andávamos sozinhos. De súbito vemos sem sombra alguma que não existe aquilo em que nos apoiávamos. A solidão deixou de ser um nome apenas. Tocamo-la, empurra-nos e agride-nos. Dói. Dói tanto! E parece-nos que há um mundo inteiro a gritar de dor, e que à nossa volta quase todos sofrem e são sós.
Temos de ter, necessariamente, uma alma. Se não, onde se alojaria este frio que não está no corpo?
Rimos e sabemos que não é verdade. Falamos e sabemos que não somos nós quem fala. Já não acreditamos naquilo que todos dizem. Os jornais caem-nos das mãos. Sabemos que aquilo que todos fazem conduz ao vazio que todos têm.
Poderíamos continuar adormecidos, distraídos, entretidos. Como os outros. Mas naquele momento vemos com clareza que tudo terá de ser diferente. Que teremos de fazer qualquer coisa semelhante a levantarmo-nos de um charco. Qualquer coisa como empreender uma viagem até ao castelo distante onde temos uma herança de nobreza a receber.
O tempo que nos resta é de aventura. E temos de andar depressa. Não sabemos se esse tempo que ainda temos é bastante.
E de súbito descobrimos que temos de escolher aquilo que antes havíamos desprezado. Há uma imensa fome de verdade a gritar sem ruído, uma vontade grande de não mais ter medo, o reconhecimento de que é preciso baixar a fronte e pedir ajuda. E perguntar o caminho.
Ficamos a saber que pouco se aproveita de tudo o que fizemos, de tudo o que nos deram, de tudo o que conseguimos. E há um poema, que devíamos ter dito e não dissemos, a morder a recordação dos nossos gestos. As mãos, vazias, tristemente caídas ao longo do corpo. Mãos talvez sujas. Sujas talvez de dores alheias.
E o fundo de nós vomita para diante do nosso olhar aquelas coisas que fizemos e tínhamos tentado esquecer. São, algumas delas, figuras monstruosas, muito negras, que se agitam numa dança animalesca. Não as queremos, mas estão cá dentro. São obra nossa.
Detestarmo-nos a nós mesmos é bastante mais fácil do que parece, mas sabemos que também isso é um ponto da viagem e que não nos podemos deter aí.
Agora o tempo que nos resta deve ser povoado de espingardas. Lutar contra nós mesmos era o que devíamos ter aprendido desde o início. Todo o tempo deve ser agora de coragem. De combate. Os nossos direitos, o conforto e a segurança? Deixem-nos rir... Já não caímos nisso! Doravante o tempo é de buscar deveres dos bons. De complicar a vida. De dar até que comece a doer-nos.
E, depois, continuar até que doa mais. Até que doa tudo. Não queremos perder nem mais uma gota de alegria, nem mais um fio de sol na alma, nem mais um instante do tempo que nos resta.

Desequilíbrio















Fotografia de Nuno Bernardo
Não tenho paciência para ouvir os outros, não tenho paciência para viver, não tenho paciência para morrer, estou aqui, parada, num desequilíbrio interminável, nunca mais acabo de cair, irrito-me se me falam, sofro se não me dizem nada, odeio o gesto caridoso: a mão de alguém nos meus cabelos, o que eu quero é uma voz que me queira, um momento de descanso nessa voz.

Despi devagar
















Fotografia de Tuta

despi devagar o calor de dizer o teu nome
no silêncio do quarto

o aconchego de se ainda voltasses
abre-se em palavras surdas

depois de improviso percorro a solidão
ao espelho

como se, ao olhar muito te visse
preso na pele dos dedos
inacabado e à deriva nos meus olhos

Coisas estropiadas



















Fotografia de C.Serra
Havia dias em que a alma lhe caía, ficava com a alma baixa, entre os pés, quase a rasar o chão. A alma descaída sob suspeita, dizia.

Nesses dias, um mau olhar, uma falta de atenção ou uma frase qualquer, um adjectivo a mais, algo inesperado, em suma, podia estropiá-lo completamente e dar cabo dele e da sua alma, no meio da rua.

Isto vinha a acontecer desde que lhe contaram uma história, a sua própria história, aquela que ele recordava ter vivido de outra maneira, quase feliz.

Mas agora já sabe, já lhe contaram como essa história de amor se estropiou antes do fim, ao longo dos últimos meses. Quando ambos se separaram e ele rastejou até à praia dos mutilados, ignorava completamente o que mais tarde lhe contariam com todos os detalhes: que já havia indícios de manchas entre os dedos daquele amor, muito antes de acabar mal.

Por isso agora, diz que há dias em que a alma lhe cai ao chão e lhe fica entre os pés, embaraçada nos atacadores dos sapatos.

Liberdade
















Fotografia de André Viegas
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

A liberdade nunca é real














Se examinarmos um indivíduo isolado sem o relacionarmos com o que o rodeia, todos os seus actos nos parecem livres. Mas se virmos a mínima relação entre esse homem e quanto o rodeia, as suas relações com o homem que lhe fala, com o livro que lê, com o trabalho que está fazendo, inclusivamente com o ar que respira ou com a luz que banha os objectos à sua roda, verificamos que cada uma dessas circunstâncias exerce influência sobre ele e guia, pelo menos, uma parte da sua actividade. E quantas mais influências destas observamos mais diminui a ideia que fazemos da sua liberdade, aumentando a ideia que fazemos da necessidade a que está submetido.

(...) A gradação da liberdade e da necessidade maiores ou menores depende do lapso de tempo maior ou menor desde a realização do acto até à apreciação desse mesmo acto. Se examino um acto que pratiquei há um minuto em condições quase as mesmas em que me encontro actualmente, esse acto parece-me absolutamente livre. Mas se aprecio um acto realizado há um mês, ao encontrar-me em circunstâncias diferentes, a meu pesar, se não tivesse realizado esse acto, não existiriam muitas coisas inúteis, agradáveis e necessárias que derivam dele. Se me translado com a memória a um acto mais remoto, a um acto de há dez anos ou mesmo mais, então as suas consequências ainda se me apresentarão mais evidentes e ser-me-á difícil representar-me seja o que for, caso aquele acto remoto nunca tivesse existido.
Quanto mais retroceder na minha memória, ou, o que vem a dar na mesma, quanto mais projectar no futuro o meu juízo, tanto mais duvidosos me parecerão os meus raciocínios acerca da liberdade do acto realizado.

A fidelidade











As pessoas realmente frívolas são as que só amam uma vez na vida. O que elas chamam lealdade ou fidelidade, chamo eu letargia do hábito ou falta de imaginação. A fidelidade representa na vida emocional o mesmo que a coerência na vida do intelecto, apenas uma confissão de impotência. A fidelidade! Tenho de a analisar um destes dias. Está intimamente associada à paixão da propriedade. Há muitas coisas que atiraríamos fora se não receássemos que outros as apanhassem.
in 'O Retrato de Dorian Gray'

No amor é a alma aquilo que mais nos toca









As mesmas paixões são bastante diferentes nos homens. O mesmo objecto pode-lhes agradar por aspectos opostos; suponho que vários homens podem prender-se a uma mesma mulher; uns a amam pelo seu espírito, outros pela sua virtude, outros pelos seus defeitos, etc. E pode até acontecer que todos a amem por coisas que ela não tem, como quando se ama uma mulher leviana a quem se julga séria. Pouco importa, a gente prende-se à idéia que se tem prazer em fazer dela; e é mesmo apenas essa idéia que se ama, não é a mulher leviana. Assim, não é o obje­to das paixões que as degrada ou as enobrece, mas a ma­neira como a gente o encara.

Ora, eu disse que era pos­sível que se buscasse no amor algo mais puro do que o interesse dos nossos sentidos. Eis o que me faz pensar assim. Vejo todos os dias no mundo que um homem cer­cado de mulheres com as quais nunca falou, como na missa, no sermão, nem sempre se decide pela mais boni­ta, ou mesmo pela que lhe pareça tal. Qual a razão disso? É que cada beleza exprime um carácter bem particular, e preferimos aquele que melhor se encaixa no nosso. É pois o carácter que nos determina algumas vezes; é então a alma que procuramos: não me podem negar isso. Por­tanto, tudo o que se oferece aos nossos sentidos só nos agrada como a imagem daquilo que se esconde à vista deles; portanto, só gostamos então das qualidades sensí­veis como órgãos do nosso prazer, e com subordinação às qualidades imperceptíveis aos sentidos, de que elas são a expressão; portanto, pelo menos é verdade que a alma é aquilo que mais nos toca. Ora, não é aos sentidos que a alma é agradável, mas ao espírito: assim, o interes­se do espírito torna-se o principal, e se o interesse dos sentidos lhe fosse oposto, nós o sacrificaríamos. Basta pois nos persuadirmos de que ele lhe é verdadeiramente oposto, que é uma nódoa para a alma. Eis o amor puro.
Amor no entanto verdadeiro, que não se deve con­fundir com a amizade; porque na amizade, é o espírito que é o orgão do sentimento; aqui, são os sentidos. E como as idéias que vêm pelos sentidos são infinitamente mais poderosas do que as vistas da reflexão, o que elas inspiram é a paixão. A amizade não vai tão longe.
in 'Das Leis do Espírito'

Decisão, Desejo e Acção













A decisão é, na verdade, o que de mais próprio concerne a excelência e é melhor do que as próprias acções no que respeita à avaliação dos carácteres humanos. A decisão parece, pois, ser voluntária. Decidir e agir voluntariamente não é, contudo, a mesma coisa, pois, a acção voluntária é um fenómeno mais abrangente. É por essa razão que ainda que tanto as crianças como os outros seres vivos possam participar na acção voluntária, não podem, contudo, participar na decisão. Também dizemos que as acções voluntárias dão-se subitamente, mas não assim de acordo com uma decisão.
Os que dizem que a decisão é um desejo, ou uma afecção, ou anseio, ou uma certa opinião, não parecem dizê-lo correctamente, porque os animais irracionais não tomam parte nela. Por outro lado, quem não tem autodomínio age cedendo ao desejo, e, desse modo, não age de acordo com uma decisão. Finalmente, quem tem autodomínio age, ao tomar uma decisão, mas não age, ao sentir um desejo.
Um desejo pode opor-se a uma decisão, mas já não poderá opor-se a um outro desejo. O desejo tem em vista o que é agradável e o que é desagradável. A decisão, contudo, não é feita em vista do desagradável nem do agradável.
in 'Ética a Nicómaco'

Não amar nem odiar















Se possível, não devemos alimentar animosidade contra ninguém, mas observar bem e guardar na memória os procedimentos de cada pessoa, para então fixarmos o seu valor, pelo menos naquilo que nos concerne, regulando, assim, a nossa conduta e atitude em relação a ela, sempre convencidos da imutabilidade do carácter. Esquecer qualquer traço ruim de uma pessoa é como jogar fora dinheiro custosamente adquirido. No entanto, se seguirmos o presente conselho, estaremos a proteger-nos da confiabilidade e da amizade tolas.
«Não amar, nem odiar», eis uma sentença que contém a metade da prudência do mundo; «nada dizer e em nada acreditar» contém a outra metade. Decerto, daremos de bom grado as costas a um mundo que torna necessárias regras como estas e como as seguintes.

Mostrar cólera e ódio nas palavras ou no semblante é inútil, perigoso, imprudente, ridículo e comum. Nunca se deve revelar cólera ou ódio a não ser por actos; e estes podem ser praticados tanto mais perfeitamente quanto mais perfeitamente tivermos evitado os primeiros. Apenas animais de sangue frio são venenosos.
Falar sem elevar a voz: essa antiga regra das gentes do mundo tem por alvo deixar ao entendimento dos outros a tarefa de descobrir o que dissemos. Ora, tal entendimento é vagaroso, e, antes que termine, já nos fomos. Por outro lado, falar sem elevar a voz significa falar aos sentimentos, e então tudo se inverte. Com maneiras polidas e tom amigável, pode-se falar grandes asneiras a muitas pessoas sem perigo imediato.
in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'

Não há felicidade solitária















É a fraqueza do homem que o torna sociável; são as nossas mi­sérias comuns que levam os nossos corações a interessar-se pela humanidade; não lhe deveríamos nada, se não fôssemos homens. Todos os afectos são indícios de insuficiência; se cada um de nós não tivesse necessidade dos outros, nunca pensaria em unir-se a eles. Assim, da nossa própria enfermidade, nasce a nossa frágil fe­licidade. Um ser verdadeiramente feliz é um ser solitário; só Deus goza de uma felicidade absoluta; mas qual de nós faz uma ideia do que isso seja? Se algum ser imperfeito se pudesse bastar a si mes­mo, de que desfrutaria ele, na nossa opinião? Estaria só, seria mi­serável. Não posso acreditar que aquele que não precisa de nada possa amar alguma coisa; não acredito que aquele que não ama na­da se possa sentir feliz.
in 'Emílio'

O juízo da perturbação


















Se estás aflito por alguma coisa externa, não é ela que te perturba, mas o juízo que dela fazes. E está em teu poder dissipar esse juízo. Mas se a dor provém da tua disposição interior, quem te impede de a corrigir? E se sofres particularmente por não estares a fazer algo que te parece certo, por que não ages, em vez de te lamentares? Um obstáculo insuperável te o impede? Não te aflijas, então, pois a causa de não o estares a fazer não depende de ti. Não vale a pena viver se não o pderes fazer? Parte, então, desta vida satisfeito, como partirias se tivesses logrado êxito no que pretendias fazer, mas sem cólera contra o que se te opôs.
in 'A Fortaleza Interior'

A cegueira do amor














Desde que se ame, o mais sensato dos homens não vê nenhum objecto tal como é. Exagera para menos as suas próprias vantagens e para mais os menores favores do objecto amado. Os temores e as esperanças transformam-se imediatamente em algo de romanesco. Deixa de atribuir seja o que for ao acaso; perde o sentido das probabilidades; uma coisa imaginada é uma coisa existente que influi na sua felicidade.
Um signo aterrador de que se está a perder a cabeça é que, ao pensar em qualquer facto, por minúsculo e difícil de observar que seja, o vejamos branco e o interpretemos em favor do nosso amor; um instante depois, verificamos que na realidade era negro, e mesmo assim ainda o achamos favorável ao nosso amor.
É nessa altura que uma alma presa de mortais incertezas sente vivamente a necessidade de um amigo; mas para um amante já não há amigos, como muito bem se sabia nas cortes. Eis a fonte da única espécie de indiscrição que uma mulher é capaz de perdoar.
in "Do Amor"

Enquanto os homens morrerem















Queremos todos ajudar-nos uns aos outros. Os seres humanos são assim. Queremos viver a felicidade dos outros e não a sua infelicidade. Não queremos odiar nem desprezar ninguém. Neste mundo há lugar para toda a gente. E a boa terra é rica e pode prover às necessidades de todos.
O caminho da vida pode ser livre e belo, mas desviámo-nos do caminho. A cupidez envenenou a alma humana, ergueu no mundo barreiras de ódio, fez-nos marchar a passo de ganso para a desgraça e a carnificina. Descobrimos a velocidade, mas prendemo-nos demasiado a ela. A máquina que produz a abundância empobreceu-nos. A nossa ciência tornou-nos cínicos; a nossa inteligência, cruéis e impiedosos. Pensamos de mais e sentimos de menos. Precisamos mais de humanidade que de máquinas. Se temos necessidade de inteligência, temos ainda mais necessidade de bondade e doçura. Sem estas qualidades, a vida será violenta e tudo estará perdido.

Àqueles que podem ouvir-me, digo: Não desesperem. A desgraça que nos oprime não provém senão da cupidez, do azedume dos homens que têm receio de ver a humanidade progredir. O ódio dos homens há-de passar, e os ditadores morrem, e o poder que tiraram ao povo, o povo retomá-lo-à. Enquanto os homens morrerem, a liberdade não perecerá.
in 'Discurso final de «O Grande Ditador»'

Erros da inteligência e do coração












Os erros e as dúvidas da inteligência desaparecem mais depressa, sem deixar rasto, que os erros do coração; desaparecem não tanto em consequência de discussões e polémicas como graças à lógica iniludível dos acontecimentos da vida viva, que ás vezes trazem consigo o verdadeiro escape e mostram o caminho adequado, senão logo, na primeira altura, num prazo relativamente breve, em certas ocasiões, sem haver necessidade de se esperar pela geração seguinte. Com os erros do coração o mesmo não sucede. O erro do coração é de maior monta; significa que o espírito frequentemente, o espírito de toda a nação, está doente, sofre de qualquer contágio e não poucas vezes essa enfermidade, esse contacto, implicam tal grau de cegueira, que toda a nação se torna incurável... por mais tentativas que se façam para a salvar. Pelo contrário, essa cegueira desfigura os factos a seu talante, deforma-os segundo as delirantes visões do espírito doente e até pode suceder que toda a nação prefira ir para a ruína conscientemente, quer dizer, conhecendo já a sua cegueira, a deixar-se curar... pois já não quer que a curem.
in 'Diário de um Escritor'

Coração mais forte que o dever













Nas alturas em que o meu dever e o meu coração estavam em contradição, o primeiro raramente saiu vitorioso, a menos que bastasse eu abster-me; então, na maioria das vezes, eu era forte, mas sempre me foi impossível agir contra o meu feitio. Quer sejam os homens, o dever, ou mesmo a fatalidade quem comanda, sempre que o meu coração se cala, a minha vontade fica surda, e eu não sou capaz de obedecer. Vejo o mal que me ameaça e deixo-o chegar, em vez de agir para o evitar. Começo por vezes com esforço, mas esse esforço cansa-me e depressa me esgota, e não sou capaz de continuar. Em todas as coisas imagináveis, aquilo que não faço com prazer logo se me torna impossível de levar a cabo.
in 'Os Devaneios do Caminhante Solitário'

Fragmento do Homem

















Que tempo é o nosso? Há quem diga que é um tempo a que falta amor. Convenhamos que é, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsessão do lucro foi transformando o homem num objecto com preço marcado. Estrangeiro a si próprio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem à tona é o mais abominável dos simulacros. Toda a arte moderna nos dá conta dessa catástrofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa denúncia; a sua dignidade, em não pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar máscaras e máscaras.

E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogmático é mais do que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias à «sabedoria» do corpo, em que o privilégio de uns poucos é utilizado implacavelmente para transformar o indivíduo em «cadáver adiado que procria», como poderia a arte deixar de reflectir uma tal situação, se cada palavra, cada ritmo, cada cor, onde espírito e sangue ardem no mesmo fogo, estão arraigados no próprio cerne da vida?
Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade - eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem. Nós aprendemos com Pascal que o erro vem da exclusão.
in 'Os Afluentes do Silêncio'

Vive o instante que passa













Vive o instante que passa. Vive-o intensamente até à última gota de sangue. É um instante banal, nada há nele que o distinga de mil outros instantes vividos. E no entanto ele é o único por ser irrepetível e isso o distingue de qualquer outro. Porque nunca mais ele será o mesmo nem tu que o estás vivendo. Absorve-o todo em ti, impregna-te dele e que ele não seja pois em vão no dar-se-te todo a ti. Olha o sol difícil entre as nuvens, respira à profundidade de ti, ouve o vento. Escuta as vozes longínquas de crianças, o ruído de um motor que passa na estrada, o silêncio que isso envolve e que fica. E pensa-te a ti que disso te apercebes, sê vivo aí, pensa-te vivo aí, sente-te aí. E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que és. Assim o dom estúpido e miraculoso da vida não será a estupidez maior de o não teres cumprido integralmente, de o teres desperdiçado numa vida que terá fim.
in 'Conta-Corrente IV'

O amor vulgar















Pinta-se o Amor sempre menino, porque ainda que passe dos sete anos, nunca chega à idade de uso de razão. Usar de razão, e amar, são duas coisas que não se juntam. A alma de um menino, que vem a ser? Uma vontade com afectos, e um entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém teve a vontade febricitante, que não tivesse o entendimento frenético. O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar, se é amor. Nunca o fogo abrasou a vontade, que o fumo não cegasse o entendimento. Nunca houve enfermidade no coração, que não houvesse fraqueza no juízo. Por isso os mesmos Pintores do Amor lhe vendaram os olhos. E como o primeiro efeito, ou a última disposição do amor, é cegar o entendimento, daqui vem, que isto que vulgarmente se chama amor, tem mais partes de ignorância: e quantas partes tem de ignorância, tantas lhe faltam de amor. Quem ama, porque conhece, é amante; quem ama, porque ignora, é néscio. Assim como a ignorância na ofensa diminui o delito, assim no amor diminui o merecimento. Quem, ignorando, ofendeu, em rigor não é delinquente; quem, ignorando, amou, em rigor não é amante.
in "Sermões"

O nosso eterno era o momento















Tinhas a pele arrepiada pelo sentimento. Os olhos rasos de contentamento. A vida trazias nas mãos abertas. E o fruto do nosso encontro era uma alma cheia de presente, sem medo do futuro e sem necessidade de olhar o passado.
Querias-me assim como eu te queria. Eternamente. Que era o mesmo que dizer, enquanto durasse. O nosso eterno era o momento, pleno, e não havia promessas feitas ao entardecer. O que dávamos estava em todos os gestos, em todos os olhares, no encontrar dos corpos. Nada de planos para o futuro, nada de palavras vãs para encher o vazio. Não existia o vazio.
Mas quando olhávamos para nós sentimo-nos cheios de mais. A sonhar o que não podíamos ter uma vida inteira. Não acreditávamos que a vida se desse assim, como uma fruta fresca em pleno verão. Estranho o destino humano. Tudo o que é bom demais faz-nos afastar, evitar. Nem sequer tocamos com o medo de estragar. Para que nada mude, não chegamos a viver tudo o que se oferece aos nossos olhos. E partimos antes mesmo de chegar.

O assombro da incoerência do nosso ser

















Sou um mero espectador da vida, que não tenta explicá-la. Não afirmo nem nego. Há muito que fujo de julgar os homens, e, a cada hora que passa, a vida me parece ou muito complicada e misteriosa ou muito simples e profunda. Não aprendo até morrer - desaprendo até morrer. Não sei nada, não sei nada, e saio deste mundo com a convicção de que não é a razão nem a verdade que nos guiam: só a paixão e a quimera nos levam a resoluções definitivas.

O papel dos doidos é de primeira importância neste triste planeta, embora depois os outros tentem corrigi-lo e canalizá-lo... Também entendo que é tão difícil asseverar a exactidão dum facto como julgar um homem com justiça.
Todos os dias mudamos de opinião. Todos os dias somos empurrados para léguas de distância por uma coisa frenética, que nos leva não sei para onde. Sucede sempre que, passados meses sobre o que escrevo - eu próprio duvido e hesito. Sinto que não me pertenço...
É por isso que não condeno nem explico nada, e fujo até de descer dentro de mim próprio, para não reconhecer com espanto que sou absurdo - para não ter de discriminar até que ponto creio ou não creio, e de verificar o que me pertence e o que pertence aos mortos. De resto isto de ter opiniões não é fácil. Sempre que me dei a esse luxo, fui forçado a reconhecer que eram falsas ou erróneas.
in " Se Tivesse de Recomeçar a Vida "

Não deixes que metam o nariz na tua vida














Quando falas ou simulas falar de ti próprio e amalgamas passado, presente, futuro, há sempre os que perguntam se o que contaste é verdade ou não. Nunca indagam se vai ser verdade. O que lhes interessa é saber, com a curiosidade dos intriguistas, se o que se passou (ou parece ter-se passado) se passou mesmo contigo. É um erro de gente vulgar. Parasitários ou não, qualquer invenção ou patranha, qualquer «mentir verdadeiro» é acepipe biográfico, é pretexto para te enfileirarem na nulidade biográfica que é a deles próprios e tecerem incansavelmente histórias a teu respeito.
Não te deixes seduzir pelo gosto da conversa. Essa pequena gente não merece a mais pequena atenção, nem tu precisas de espectadores para o salutar exercício diário de falar por falar.
(...) Não deixes que metam o nariz na tua vida. Caso contrário, vais ficar cheio de gente, com a sua vida escassamente interessante. O tombo da vida vulgar já foi feito por escritores como Camilo. E tenho a impressão de que, no essencial, a vida vulgar continua a mesma.
Desunha-te a escrever (olha que já tens pouco tempo!), mas fá-lo com a discrição e a reserva de quem não se dá às primeiras. É outro exercício salutar.
in "Uma Coisa em Forma de Assim"

O verdadeiro gesto de amor

















Aquilo que de verdadeiramente significativo podemos dar a alguém é o que nunca demos a outra pessoa, porque nasceu e se inventou por obra do afecto. O gesto mais amoroso deixa de o ser se, mesmo bem sentido, representa a repetição de incontáveis gestos anteriores numa situação semelhante. O amor é a invenção de tudo, uma originalidade inesgotável. Fundamentalmente, uma inocência.
in 'Jornal sem Data'

Não se reconquista o amor com argumentos















Não te esqueças de que a tua frase é um acto. Se desejas levar-me a agir, não pegues em argumentos. Julgas que me deixarei determinar por argumentos? Não me seria difícil opor, aos teus, melhores argumentos.

Para fundar o amor por mim, faço nascer em ti alguém que é para mim. Não te confessarei o meu sofrimento, porque ele te faria desgostar de mim. Não te farei censuras: elas irritar-te-iam justamente. Não te direi as razões que tu tens para amar-me, porque não as tens. A razão de amar é o amor. Também não me mostrarei mais, tal como tu me desejavas. Porque tu já não desejas esse. Se não, amar-me-ias ainda. Mas educar-te-ei para mim. E, se sou forte, mostrar-te-ei uma paisagem que fará de ti meu amigo.
in "Cidadela"

Olhar... em frente...















Às vezes já não sei se sou eu quem acorda ou se é a curva dos dias que mergulha em mim e me diz que já é tempo de polinizar os olhos.
Olhar em frente, olhar em frente.
Sentir a ventania no peito, a alvorada no colo, o sonho nas pestanas arregaladas.
Olhar em frente como quem não deixou nada caído lá atrás...

Fica

















... fica comigo peço mas tu não me ouves
e eu sei que vou voltar a esperar por ti na vida que me resta
e em todas as vidas e em todas as mortes
até ao dia em que difinitivamente
despeças o teu corpo do meu
e eu repita fica comigo e tu
desapareças...

P'ra rua me levar


Não vou viver como alguém
Que só espera um novo amor
Há outras coisas
No caminho onde eu vou
Às vezes ando só
Trocando passos
Com a solidão
Momentos que são meus
E que não abro mão

Escuto no silêncio
Que há em mim e basta
Outro tempo começou
P'rá mim agora...
É! Mas tenho ainda
Muita coisa pra arrumar
Promessas que me fiz
E que ainda não cumpri
Palavras me aguardam
O tempo exacto p'rá falar
Coisas minhas...
Ana Carolina e Seu Jorge (ao vivo)

Ápices














O tempo pode apagar a lembrança de um corpo ou de um rosto, mas nunca a das pessoas que souberam fazer de um pequeno instante, um grande momento...

Deixa-me errar














Deixa-me errar alguma vez, porque também sou isso: incerta e dura, e ansiosa ...
Deixa-me errar mas não me soltes para que eu não me perca deste tênue fio de alegria... enquanto houver entre nós essa magia.

Eu aprendi














Que só dentro de mim e reconciliando-me comigo, encontrarei e poderei fazer germinar a semente da felicidade...
Tudo o mais virá naturalmente e em consequência da minha paz interior...

À medida da necessidade

Os jovens de agora parece que têm dificuldade em crescer.
Não sei porquê.
Se calhar as pessoas só crescem ao ritmo a que são obrigadas...

Aprende-se

A verdade, a verdade é que tudo aprendemos na vida!
Aprendemos a amar, a acreditar no amanhã...
Mas, também, aprendemos a sofrer e, sim, a esquecer...
Nem que esquecer seja só uma ilusão necessária para poder continuar...

Mistérios

Não há mistério maior do que o minúsculo. É aí, sob a protecção do invisível, que se dá a explosão do secreto. É no limite, na circunscrição, que dormitam os maiores projectos; o que separa o dentro do fora possibilita a evolução.
Por isso, percebo que é preciso cuidar do que é pequeno...
in 'Escuta a minha voz'

A cada virtude corresponde um vício

Habituo-me a só pensar bem dos meus amigos, a confiar-lhe os meus segredos e o meu dinheiro; não tarda que me traiam. Se me revolto contra uma perfídia sou eu, sempre, a sofrer o castigo. Esforço-me por amar os homens em geral; faço-me cego aos seus erros e deixo, indulgente ao máximo, passar infâmias e calúnias: uma bela manhã acordo cúmplice. Se me afasto de uma sociedade que considero má, bem depressa sou atacado pelos demónios da solidão; e procurando amigos melhores, acho os piores.
Mesmo depois de vencer as paixões más e chegar, pela abstinência, a uma certa tranquilidade de espírito, sinto uma auto-satisfação que me eleva acima do próximo; e temos à vista o pecado mortal, a vaidade imediatamente castigada.
Como explicar que toda a aprendizagem de virtude dê origem a um novo vício?
in 'Inferno'

Carta à minha vida

Não sonhes a tua vida. Vive os teus sonhos!
Aqui estou eu a escrever... Quem sabe estas sejam as minhas últimas palavras...
A minha vida, por vezes, não foi nada do que eu imaginei, algumas vezes nada do que eu queria que fosse, tudo foi mais complicado... assim se caracteriza a minha vida... um sonho convertido em realidade... imbuído, adaptado à realidade palpável...
Gosto de acreditar, acreditar que existe um lugar para onde eu possa fugir quando o meu coração escurece... onde me possa esconder sempre que precise... sempre que a realidade me atormente.
Acredito piamente que a vida é o que fazemos dela, e que o destino é o que fazemos durante a nossa estadia neste lugar. No meu íntimo existem vários deuses, cada um com seu estado de alma... Às vezes não sei quem sou, se sou eles ou se sou eu mesmo, se sou eu quem cria as ilusões... Gosto de pensar que algures existe um mundo perfeito, uma ligação feita união.
Cheguei à conclusão que vivemos rodeados de pilares, colunas vertebrais de uma vida de diferentes ensejos, nascentes, vertentes... Temos algo nosso ao nascer, que carregamos enquanto crescemos e às vezes perdemos pelo caminho... O tempo não pára e eu não tenho muito mais para dar...
Hoje não sou a mesma, mudei... cresci, aprendi, mas não sei se abri os olhos. Se sou feliz? Eu fui feliz, sinto-me feliz e isso basta.
Decidi mudar em lugar de ficar à espera que as coisas mudassem... e consegui viver os meus sonhos!...

Ontem, Hoje e Amanhã

Olho para trás e estes últimos anos... estes últimos, que não são nem um, nem dois, nem dez, mas sim os anos da nossa vida em comum, aqueles em que construímos o nosso porto de abrigo, o nosso ninho, o nosso ponto de referência... estes, apesar das dificuldades, das contrariedades, dos pequenos episódios menos bons que afinal foram aqueles que nos fortaleceram... apesar de tudo, foram os mais felizes da minha vida.
Eu sou uma mulher afortunada em ter-vos ao meu lado... Acho que ninguém se põe a pensar nas voltas que a vida pode dar... mas todas, todas quantas já foram dadas no nosso percurso, convergiram sempre, sempre a nós!...
Eu sou a mulher mais feliz ao vosso lado... E sou a mulher mais feliz do mundo quando penso em vocês, quando penso que vou estar e estou perto, quando sonho convosco, quando sei que tu estás aqui, sempre ao meu lado, quando sei que quando eles me beijam, eles sentem que são tudo para mim.
Eu sou feliz ao vosso lado... ontem, hoje e amanhã!...

Feliz Ano Novo

Há sempre um dia

Há sempre um dia em que a alma diz “basta”, como um grito fechado numa gaveta empoeirada pelo peso do tempo; há sempre um dia em que acordamos fartos de viver o que ainda não existe e queremos fugir do que já vivemos, fugir de nós, fugir de tudo e de todos...
Há sempre um dia em que o mundo cai sobre as nossas costas sem que o possamos mais suster; esse mundo onde o silêncio e o amanhã são almas gémeas que acabam por sacrificar tudo o que ficou para trás, tudo o que foi bom, tudo o que deixou de ser, hoje, aqui e agora...

Solidão interior

Uma única coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém durante horas, é a isso que é preciso chegar.
Estar só, como a criança está só.

Perdoa

Perdoa-me.
Cometi erros e mais erros, passei a vida a cavar nas galerias como uma toupeira, sem ver nada, a andar às voltas como um rato.
Não havia horizonte, não havia futuro.
Nasci para viver num beco sem saída, agora estou no fim do caminho.
Perdoa-me, se puderes.
Se não puderes, ...

Felicidade

Com a felicidade acontece o mesmo que com a verdade: não se possui, mas está-se nela. Sim, a felicidade não é mais do que o estar envolvido, reflexo da segurança do seio materno. Por isso, nenhum ser feliz pode saber que o é. Para ver a felicidade, teria de dela sair: seria então como um recém-nascido. Quem diz que é feliz mente, na medida em que jura, e peca assim contra a felicidade. Só lhe é fiel quem diz: fui feliz. A única relação da consciência com a felicidade é o agradecimento: tal constitui a sua incomparável dignidade.
in "Minima Moralia"

Natal

O segredo do Natal está dentro de cada um nós...
Reflecte e vive-o intensamente!...

Feliz e Santo Natal

O amor é...

... como o vento... não se vê mas, sente-se!...

Acho que...

... na vida, às vezes, existem dois caminhos mas, sentimos que o melhor é sempre o que escolhemos, mesmo que o outro nos deixe com saudades do que não vivemos...

Ouves?

... Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem, ouves o teu coração...?

Há...

... dias distintos, momentos eternos, gestos inesperados, palavras felizes!
... pessoas únicas... pelo tanto que nos fazem sentir especiais!...

Avé...

Benedicta tu in mulieribus
Et benedictus fructus ventris tui...
À minha mana e à Leonor

Quando...

... julgamos que sobre nós não recai qualquer atenção, há sempre alguém que, no silêncio, nos perscruta a alma!...

Gosto...

... de pintar paredes... de misturar cores...
... de mudar os móveis de lugar...
... de sentir a vida em movimento...
... de sentir que sou uma parte desse movimento...

Uns e Outros

Uns têm porque merecem... têm porque conquistam, vão à luta... e, ainda, têm porque acreditam que o esforço compensa...
Mas há outros que não têm porque, afinal, não querem... não lutam!... a conquista requer empenho, trabalho e tantas vezes, também, sofrimento... Esses, esses não têm nada... e o nada que têm... nem a esse nada deveriam ter direito!...

Meu Amor

Faz-me feliz o teu sorriso...
Faz-me feliz a tua alegria...
Faz-me feliz... ver-te feliz!...
Parabéns, meu amor do coração!

Não existem anjos...

... existem pessoas que nos fazem ter, cada dia, um dia melhor. Que lutam por nós. Que não passam sem nós e sem as quais nós também não passamos...

Só...

... nos zangamos demais e só nos magoamos muito, quando é deveras imenso o nosso gostar, o nosso querer, o nosso desejo, o nosso sonho... Tudo o resto, passa-nos ao lado...

Fio Invisível

"Faz-me muito bem falar contigo!"
É inquestionável! A amizade é o sentimento mais forte que podemos nutrir por alguém.
Na base de um qualquer relacionamento deverá existir a amizade, pois que se a sua ausência se verificar, não há relação que perdure.
Encontrar um amigo é ser abençoado. Ter um amigo é uma dádiva.
É saber, sem ter que pensar, que aconteça o que acontecer ele vai estar ao teu lado, ouvir-te-á ainda que não emitas um som. Decifrará as tuas palavras e escutará e entenderá o teu silêncio.
Amigo é aquele que te olha nos olhos e sabe ler o teu olhar.
A amizade é o fruto da vivência do dia-a-dia, que floresce e se perpetua "ad aternum".
Nenhum caminho é longo demais quando um amigo nos acompanha.

"A verdadeira amizade encontra-se "somewhere over the rainbow", algures num mundo inatingível que não se pode mudar, algures nas lágrimas de alegria, nos sorrisos de ternura, nos abraços cúmplices, nas ofertas puras, nos carinhos genuínos, na entrega que não espera resposta.
Um amigo não é aquele que se lembra, é aquele que não esquece, como se se o fizesse se esquecesse da sua própria identidade. É um companheiro que adormece connosco sem estar perto e que chora connosco, mesmo a sorrir. Um amigo não é o que pensa como nós, mas o que nos faz acreditar nele. é aquele que se levanta da mesa connosco quando nós saímos, que nos diz que sim ou que não... um amigo é um irmão... o irmão que NÓS escolhemos... e quando um dia morrermos, velhinhos, temos a certeza que ele morrerá também connosco, devagarinho. Um amigo vive somewhere in a place called heart, aquele lugar feito para partilhar. "

Recomeço

Caneta. Papel. Tempo. Vontade. Necessidade. Palavras. Nada falta!
Nem as palavras? Sim, nem as palavras! Muitas, mas desordenadas!
Ainda não consegui colocar-lhes ordem...
Ou, talvez seja esse o seu lugar... a desordem...
A desordem ordenada... ao meu jeito...
Às vezes basta-me que só eu as entenda...

Sete

A minha querida amiga Hanokas há-de ter achado que eu andava um pouco afastada deste espaço e entendeu "acorrentar-me". Desta vez, para responder ao desafio dos "Sete":

Sete coisas que tenho que fazer antes de morrer:
* Descobrir-me e cativar-me
* Compreender minimamente o ser humano
* Ler todos os livros que impulsivamente compro
* Fechar os olhos e descansar
* Pregar fixamente um sorriso no meu rosto
* Viajar, conhecer o país que me fascina
* Ensinar os meus filhos a respeitarem a vida

Sete coisas que mais gosto:
* Música, com melodia
* Palavras, muitas e com substância
* Dar, tudo quanto tiver e puder
* Ouvir, fonte do meu crescimento
* Olhar, para lá do que os meus olhos alcançam
* Sonhar, “o sonho comanda a vida”
* Ser, tal como sou

Sete prazeres fúteis:
* No meu conceito de prazer não encaixa a futilidade.
Tudo quanto me dá prazer, imperiosamente deixa de ser fútil.

Sete coisas que digo frequentemente:
* Desculpa
* Se faz favor
* Obrigada
* Enfim!
* Que tristeza!
* Meu Deus, porque me fizeste tão bela e amarela! - é só para rimar!
* Quem vê caras não vê corações

Sete coisas que faço bem:
* Silenciar-me, o silêncio também é um bem necessário à comunicação
* Comunicar, no mínimo esforço-me na tentativa de o conseguir
* Respeitar, o próximo como gosto que me respeitem
* Decifrar charadas, excluo a minha existência
* Simplificar, complicada já é a vida
* Proteger, “com unhas e dentes”
* Ignorar, sempre e quem não quero que faça parte do meu círculo de relacionamentos

Sete coisas que não faço ou não sei fazer:
* Se não faço é porque entendo que não deva fazer.
Se não sei fazer, se quero saber, se preciso saber, aprendo.

Sete coisas que odeio:
* Discussão, não leva a nada
* Presunção, de qualquer índole
* Deslealdade, sinónimo de falsidade
* Invasão de privacidade, não tolero
* Sorrisos amarelos, prefiro que não me sorriam
* Ouvir dizer: não sou capaz! – somos sempre capazes, sempre que queremos
* Exageros, “o que é demais é moléstia”

Sete que acorrento a este desafio:
* Quebro a corrente; este espaço está temporária ou definitivamente inacessível portanto não se compreende que eu mencione quem quer que seja para lhe dar continuidade.

Metade de mim...

... E que a força do medo que tenho, não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que grito, mas a outra metade é silêncio.

Que a musica que eu ouço ao longe, seja linda, ainda que triste.
Que o homem que amo seja para sempre amado mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece, nem repetidas com fervor, apenas respeitadas, como a única coisa que resta a uma mulher munida de sentimentos.
Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço.
E que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que penso e a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesma,
se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflicta em meu rosto, um doce sorriso, que me lembro ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a vida nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é plateia, e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada...
Porque metade de mim é amor. E a outra metade... também.


"Viver amanhã"

Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma,
Como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar. O resto...
Sim o resto parece-se apenas com a vida.

Ontem, passei nas ruas como qualquer pessoa.
Olhei para as montras despreocupadamente
E não encontrei amigos com quem falar.
De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
Tão triste que me pareceu que me seria impossível
Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.

Fumo, sonho, recostado na poltrona.
Dói-me viver como uma posição incómoda.
Deve haver ilhas lá para o sul das coisas
Onde sofrer seja uma coisa mais suave,
Onde viver custe menos ao pensamento,
E onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
E acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
Nem no dia do mês ou da semana que é hoje.

Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
Um coração exageradamente espontâneo,
Que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
Que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta,
Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove.

Viver

É fácil viver no mundo conforme a opinião do mundo:
é fácil na solidão viver conforme a própria opinião;
mas grande é aquele que no meio da multidão,
conserva com plena serenidade a independência da solidão.

"Eterna inocência..."

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

E se...

Se depois de eu morrer,
quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples!
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.
...
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi...
...

"Realidade"

Assim como falham as palavras
quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos
quando querem exprimir qualquer realidade.
Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada,
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.
Alberto Caeiro

Ama-me...

... quando eu menos merecer... pois é quando eu mais preciso!...

"O amor nos tempos de cólera"

Fermina Daza estava na cozinha a provar a sopa do jantar quando ouviu o grito horrorizado de Digna Pardo e o alvoroço da criadagem e logo o da vizinhança. Atirou a colher para o lado e tentou correr como podia com o invencível peso da sua idade, aos gritos como uma louca sem saber ainda o que é que se passava sob os ramos da mangueira, e o coração partiu-se-lhe ao ver o seu homem estendido ao comprido na lama, já morto em vida, mas resistindo ainda um último minuto ao golpe final da morte para dar-lhe tempo a chegar. Chegou a reconhecê-la no meio da confusão, através das lágrimas da dor única de morrer sem ela, olhou-a pela última vez para todo o sempre, com os olhos mais luminosos, mais tristes e mais agradecidos que ela jamais lhe vira em meio século de vida em comum, conseguindo dizer-lhe com o último suspiro:
- Só Deus sabe quanto te amei.

Pertencer a outro lugar

Sempre tive a sensação de pertencer a outro lugar. Estranhava as palavras com que me falavam e achava esquisito as pessoas não ouvirem o que eu ouvia. Na escola, no liceu, na faculdade, a sensação de não ser daqui inquietava-me. Aprendi uma maneira de me comportar que não era minha, um idioma que não coincidia com o meu, emoções que me não provocavam qualquer eco interior. No fundo da minha alma estava de visita e cabia-me, por necessidade e educação, adoptar os hábitos nativos, que se me afiguravam complicados e inúteis. Ainda hoje me surpreende as pessoas julgarem que não tenho sotaque e não é à língua que me refiro, é a tudo o resto.

Sim, sei...

Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

O teu caminho

Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio da vida, ninguém, excepto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, pontes e semi-deuses que se oferecerão para levar-te além do rio, mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o.

Ilusão

... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.

Por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

... não existo...

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

Nada...

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Indomáveis pensamentos...

Engulo as minhas próprias palavras. Rumino e rumino até que tudo se deteriore. Cada pensamento e cada impulso é mastigado até que se transforme em nada. Quero controlar todos os meus pensamentos de uma vez, mas eles fogem em todas as direcções.
Se o conseguisse seria capaz de capturar os espíritos mais subtis, como um cardume de pequenos peixes de água doce. Poderia revelar inocência e duplicidade, generosidade e cálculo, medo, cobardia e coragem. Pretendo dizer toda a verdade porque, para isso, teria de ser capaz de escrever quatro páginas simultaneamente, quatro longas colunas simultâneas, quatro páginas resultando numa, e essa é a razão porque não escrevo nada. Teria para isso de escrever em reverso, voltar atrás constantemente para agarrar os ecos e os acordes.

Cansada

Sou a mulher mais cansada do mundo.
Fico cansada assim que me levanto.
A vida requer um esforço de que me sinto incapaz.
Por favor passa-me esse livro pesado.
Preciso de pôr qualquer coisa pesada sobre a cabeça.
Necessito constantemente de pôr os meus pés sob almofadas,
para que consiga continuar na Terra.

Obediência

A obediência à realidade significa uma debilidade no amor.

Duas de mim...

Existem duas de mim
A Louca e a Santa
Uma de nós vai dormir a outra levanta
Uma se olha no espelho
Se cuida, se arruma, se apronta
Sem saber que ela é o avesso de outra mulher

Uma é água cristalina, outra é noite de verão
Uma é só uma menina que não sabe dizer "não"
Uma é anjo bom, outra cortesã
Uma é fim de noite, outra é a luz da manhã
Uma vai p’ro céu, outra não sei não
Uma ajoelha no altar, outra pede perdão
Sandra de Sá

"Na noite..."

Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente brancas.

Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da minha mesa

Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou significa
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez...
Alberto Caeiro

Júbilo

Dou por mim a transbordar de alegria com as pequenas coisas...

"Ser" Humano

Aprendi que um homem só tem o direito
de olhar um outro de cima para baixo
para ajudá-lo a levantar-se.

Virtual realidade

Estava apressado e com muita fome no restaurante. Escolhi uma mesa bem afastada do movimento, porque queria aproveitar os poucos minutos que dispunha naquele dia, para comer e acertar alguns bugs de programação num sistema que estava a desenvolver, além de planear a minha viagem de férias, coisa que há tempos que não sei o que são.
Pedi um filete de salmão com alcaparras em manteiga, uma salada e um sumo de laranja, afinal de contas fome é fome, mas regime é regime não é?
Abri o meu portátil e apanhei um susto com aquela voz baixinha atrás de mim:
- Senhor, não tem umas moedinhas?
- Não tenho, menino.
- Só uma moedinha para comprar um pão.
- Está bem, eu compro um.
Para variar, a minha caixa de entrada está cheia de e-mail.
Fico distraído a ver poesias, as formatações lindas, rindo com as piadas malucas.
Ah! Essa música leva-me até Londres e às boas lembranças de tempos áureos.
- Senhor, peça para colocar margarina e queijo.
Percebo nessa altura que o menino tinha ficado ali.
- Ok. Vou pedir, mas depois deixas-me trabalhar, estou muito ocupado, está bem?
Chega a minha refeição e com ela o meu mal-estar. Faço o pedido do menino, e o empregado pergunta-me se quero que mande o menino ir embora. O peso na consciência, impedem-me de o dizer. Digo que está tudo bem. Deixe-o ficar. Que traga o pão e, mais uma refeição decente para ele. Então, sentou-se à minha frente e perguntou:
- Senhor o que está fazer?
- Estou a ler uns e-mail.
- O que são e-mail?
- São mensagens electrónicas mandadas por pessoas via Internet (sabia que ele não ia entender nada, mas, a título de livrar-me de questionários desses): - É como se fosse uma carta, só que via Internet.
- Senhor você tem Internet?
- Tenho sim, essencial no mundo de hoje.
- O que é Internet ?
- É um local no computador, onde podemos ver e ouvir muitas coisas, notícias, músicas, conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar, trabalhar, aprender. Tem de tudo no mundo virtual.
- E o que é virtual?
Resolvo dar uma explicação simplificada, sabendo com certeza que ele pouco vai entender e deixar-me-ia almoçar, sem culpas.
- Virtual é um local que imaginamos, algo que não podemos tocar, apanhar, pegar... é lá que criamos um monte de coisas que gostaríamos de fazer.
Criamos as nossas fantasias, transformamos o mundo em quase como queríamos que fosse.
- Que bom isso. Gostei!
- Menino, entendeste o significado da palavra virtual?
- Sim, também vivo neste mundo virtual.
- Tens computador?! - Exclamo eu!!!
- Não, mas o meu mundo também é vivido dessa maneira... Virtual. A minha mãe fica todo dia fora, chega muito tarde, quase não a vejo, enquanto eu fico a cuidar do meu irmão pequeno que vive a chorar de fome e eu dou-lhe água para ele pensar que é sopa, a minha irmã mais velha sai todo dia também, diz que vai vender o corpo, mas não entendo, porque ela volta sempre com o corpo, o meu pai está na cadeia há muito tempo, mas imagino sempre a nossa família toda junta em casa, muita comida, muitos brinquedos de natal e eu a estudar na escola para vir a ser um médico um dia. Isto é virtual não é senhor???"

(... o que é a vida, afinal? uma dura realidade colorida com um "mundo virtual"...)

Silêncio

Podemos às vezes ofender com palavras,
mas também podemos ofender muito mais com o silêncio.
Nenhum insulto pronunciado jamais feriu tão profundamente,
como a ternura que esperamos e não recebemos.
Ninguém jamais se arrependeu tão amargamente
de uma indiscrição pronunciada,
como das coisas que deixou de dizer.

Há um mundo lá fora...

O mundo pode fazer-te rir, sorrir e chorar... este mesmo mundo que urge ser colorido com a força e paz da tua alma, e o desejo do teu coração...
Lá fora há um mundo por descobrir, um mundo que precisa ser pegado com as duas mãos numa determinação inabalável... é ela, a vontade de conquistar, o elo perfeito que liga o nosso pequeno mundo interior, àquele que é partilhado por tantos e tantos seres em busca dum mesmo sonho...
Não existe nada mais espantoso do que saber que depois da noite, com toda a certeza, virá o dia. E com o alvorecer, virão os pássaros. Os animais nocturnos adormecerão, os diurnos começarão a viver novamente e o tempo escoar-se-á sem piedade para o fundo dos nossos relógios. Sempre o mesmo; o mundo não muda somos nós que mudamos o mundo... é em nós, seres ínfimos, que está a essência do saber... é em nós que reside o poder de escolha... a capacidade de sonhar, de idealizar e realizar...
Há, sim, um mundo lá fora e o caminho até ele, somos nós que o traçamos. Muitas vezes a estrada parece vazia, fria e assola-nos a sensação de que a vida passa por nós sem se aperceber de que existimos... mas a esperança, eterna companheira dos crentes num amanhã melhor, não te deixará desistir e far-te-á persistir até que te aproximes e atinjas os teus objectivos. Cruzarão o teu caminho muitas pessoas que tal como tu caminham em busca do “caminho certo”... umas ajudar-te-ão, apoiando-te quando te sentires mais fraco, quando o desespero se apoderar de ti... serão o teu ombro amigo, o teu porto seguro onde poderás sempre descansar e procurar ajuda... chorarão com as tuas dores, rirão com as tuas alegrias… são eles, os teus verdadeiros amigos, os teus familiares, aqueles que acima de tudo estarão eternamente perto de ti, para te ajudarem sem nada pedirem, sem nada exigirem... Outras, haverá, que te farão sofrer, que não corresponderão às tuas expectativas, que te magoarão e te entristecerão... Cabe-te a ti discernir o bem do mal, o que é bom para ti e o que não é... diferençar quais das pessoas que te rodeiam te ajudarão a crescer e quais as que com os seus comportamentos, atitudes e ideais, sejam nefastas ao teu crescimento... Com todos quantos cruzarem o teu caminho poderás apreender uma lição, bastando para isso que estejas receptivo aos ensinamentos que podes retirar de cada vivência, de cada relacionamento.
O caminho é longo... por vezes penoso e muitas vezes, tentativas vãs em ligar o nosso mundo ao mundo que existe lá fora... mas, não esqueças nunca e tem sempre presente de que a iniciativa de enveredar na conquista dum futuro, a escolha da atitude mais correcta perante a vida e as pessoas, a vontade de querer, estão unicamente dentro de ti...
É dentro de ti que germina a pretensa felicidade, terás que saber alimentá-la devidamente para que se desenvolva e possas colher os seus frutos... Alcançá-la, a dita pela qual todos ansiamos, imperiosamente passa pela conquista do mundo que há lá fora... dependendo para tal, o caminho que escolheres e traçares até ele...
(ao meu filho adolescente)

A arte de ser feliz...

Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ía atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como reflectidas no espelho do ar. Às vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante da minha janela, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim."

Liberdade

O que é a liberdade? Esta pergunta, aparentemente tão simples leva-me a pensar seriamente no quão livre sou... Eu sinto-me especial, completa e totalmente livre! Tenho a liberdade de pensar o que quiser, de falar o que me apetecer, de sonhar como quiser... De desejar o infinito, o impossível, o inatingível! E ninguém me pode proibir de o fazer, absolutamente ninguém. Sou livre para escolher a roupa que uso, a música que oiço, os filmes que vejo... Sou livre para sentir uma paleta de emoções, cada uma colorida à sua maneira e à minha maneira... Sou livre para voar, porque dentro de mim, não há leis ou regras. Dentro de mim, o mundo torna-se no meu mundo e as pessoas assumem os lugares que eu lhes quero dar. As mais importantes são sempre as mais importantes e dentro de mim têm sempre 'o' lugar especial. E se eu quiser atribuir um lugar especial a mais alguém, apenas porque gosto do seu perfume, posso fazê-lo. Porque dentro de mim não há barreiras e sou livre... livre para poder ser eu...

Caminhar

Porque a vida não é só passado
Porque o hoje é o presente
Porque o futuro veste-se no amanhã
Porque o amanhã pede para ser vivido

Caminho...

Fui
Parei no meio do caminho
Resolvi voltar
Parei novamente
Sentei-me à beira do mar
As ondas batiam nas pedras
A brisa fez com que me perdesse do caminho
E depois de muito procurar encontrei
O mesmo velho e já cansado caminho
O caminho de sempre
O caminho que escolhi
O caminho que me aprisiona
O caminho que me faz estar aqui
O caminho que quero, afinal, caminhar...

"Fanatismo"

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!

(04.Setembro.2004)

... existe em mim...

Tudo de amor que existe em mim foi dado
Tudo que fala em mim de amor foi dito
Do nada, em mim, o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado

Espelho d'Alma

Apego-me a detalhes, ao pequeno do já minúsculo, ao nada que para outros já foi tudo... Sou de extremos também... não devia, eu sei... mas não sei ser de outra forma... não sei, ou não quero?... ou então, não posso!...
Guardo cada impressão por menor que seja... cada palavra, cada gesto, cada lapso facial... mesmo as tensões labiais. É mais forte que eu, não consigo controlar... julgo ver, por vezes, para lá do que os meus olhos alcançam... ou será que sonho quando penso que vejo?
Sustenho o meu sopro e respiro aliviada ao passar por dentro de mim, sem vislumbrar, contornando os meus hábitos que incomodam o meu ser... fujo de mim quando me aproximo do meu encontro.
Aos outros, resta a dura tarefa de tentarem compreender-me... como se isso fosse fácil...
Partilho um punhado de pensamentos meus e insistem em dizer que já me conhecem... obrigam-me a fazer uso da dualidade do meu “eu”... emergem de mim, aquela que quero afogar... e então, é vê-los de olhares sedentos de curiosidade em descobrir mistérios que não existem, que nunca existiram...
Julgam-me pelas minhas vestes, pelo meu jeito de sorrir, pelos meus gostos musicais, literários, ... sinto-me tantas e tantas vezes um animal aprisionado naquela que insistem construir como sendo eu...
O facto da minha existência preceder a minha essência, também incomoda. “Mera existencialista medíocre!”, hão-de pensar. Sequer escuto essas vozes que meramente ressoam no pensamento grotesco e doentio daqueles presumidos, que ousam chamar a si a detenção da verdade e da razão, do certo e do errado... no entanto, vozes mudas, impotentes pela ausência de veracidade e idoneidade... ressentidos incapazes de dar voz à sua própria voz...
Estou cansada de ser julgada pelos detalhes, mas não nego que, por vezes, forço uma interpretação e refuto, aos poucos, para deixar, quem se atreve a dizer-se conhecedor das minhas entranhas, num dilema excessivo, numa dúvida ocasionada por pura sagacidade...
Dementes são estes que se prendem a um papel de viverem em torno das suas almejadas vidas... vidas sonhadas mas nunca conquistadas, mutiladas pelo medo de tentar, pelo receio de falhar, pela deplorável hipocrisia...
E eu, quem sou eu? Sou, talvez, alma perdida... sobrevivo na pretidão da noite da existência humana... mas, ouso fazer-me dia... quero, preciso conquistar a minha vida, mesmo que seja só em pensamento...
Guardo cada gota desta fonte inesgotável que brota dentro de mim, para continuar a viver ao meu jeito... Os meus valores são meus... os meus detalhes, as peças do puzzle que sou eu, estão remendadas numa colcha mal costurada no porão da minha alma... que guardo só para mim...

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e mal amar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar, solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amor o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: o amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesmo de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Ano Novo

Ao som das doze baladas, recordarei todos quantos me são queridos, que não estarão comigo em presença física, mas que estarão seguramente no meu pensamento e no meu coração.

Feliz Ano Novo

"Fragmentos InTemporais"

Fragmentos InTemporais” é um espaço que clamava, há já muito, por nascer...
Lugar que pretendo seja um registo de memórias para mais tarde recordar... Quero guardar, aqui, o que os meus olhos vêem, contemplam hoje... o que tocou a minha alma... o que marcou o meu coração... momentos incomparáveis, emoções e reflexões únicas... em suma, as minhas paixões pelas “pequenas” coisas da vida... e que desejo num futuro mais próximo ou mais distante, relembrar...

À pergunta – “Quem és?” - Costumo responder tão sucintamente, quanto ao que se resume a minha existência: “Apenas Alguém!” Um alguém que pára para “olhar”, com vontade de ver...
Há pouco tempo atrás redigi um texto que, penso, traduz com exactidão o “alguém” que fui e sou...
Hoje, e porque hoje é um dia especial... hoje nasceu o “Fragmentos InTemporais”... quero como primeiro arquivo de recordações, partilhar um texto, “Pedaços de uma vida...” que ficará aqui guardado, eternizando o olhar que no dia em que o escrevi, tinha da minha vida, da minha existência... do meu “eu”...

Pedaços de uma vida...
Já vivi muito... muito de muito e muito de nada...
Uma vida farta de nada e vazia de tudo... uma vida repleta de tanto na verdadeira imensidão do intenso, do abundante...
Já vivi sem ter sentido e já senti cuidando não ter vivido...
Já me apaixonei muitas vezes... Já me apaixonei por gestos, por sorrisos, por lágrimas... Já me apaixonei pelo verdadeiro, pelo inato, por âmagos não moldados...
Tudo o que é artificial, ajustado, abomino. Tudo quanto é genuíno e expressado com despretensão, apaixona-me...
Já fui tanto e tão pouco... Já fui de tudo um pouco... Já senti e vivi todas as sensações que um ser humano pode experimentar: já ri às gargalhadas até chorar de tanto rir; já chorei de pena; já chorei de morte; já chorei de alegria ao trazer um filho ao mundo...
Já sorri em vez de chorar, enganando o choro e enganando-me a mim... Já sorri pela felicidade do retorno dum sorriso...
Já sofri, sofrer de dor profunda, de dor intrínseca e enraizada... Já sofri sem saber porquê...
Já amei e amo... amor de amor, de dar sem pedir nem esperar… amor de filha, amor de irmã, amor de mãe, amor de mulher...
Já pedi, já implorei, já me humilhei... e de joelhos já supliquei...
Já caí vezes sem conta... já me levantei na certeza, porém, de voltar a cair... para de novo me reerguer...
Já corri até ficar sem fôlego e já corri em passos lentos sem sair do lugar ao sabor da vida e dos demais...
Esperar? Já esperei, desesperei... Hoje já não espero... a vida é uma espera constante e de tão constante ser, passou à certeza do certo... e o que é certo não é esperado...
Já quis ser e não fui e já fui o que não quis ser nem ambicionei... Já quis e não quis sem saber qual o querer...
Já dei pelo prazer de dar e já recebi sem esperar receber...
Já acreditei sem questionar e já questionei sem querer saber o porquê...
Já julguei sonhar acordada, mas os sonhos não existem... os proclamados de sonhos são meramente as vontades, os anseios não realizados... porque é tão mais fácil falar de uma utopia do que querer, lutar por concretizar o desejo... o sonho é o unívoco do querer e só deixará de ser sonho se houver vontade de querer e fazer...
Já olhei com olhos de ver, já julguei ver o que os olhos não viram e já olhei para o escuro e vi o que os olhos pensaram não ver...
Já fui abençoada com pessoas boas de índole pura, amantes da vida, do amor e do próximo...
Já cruzei com entes estranhos, ficcionando vidas que não são as suas ou não as podem ter, conjecturando realidades díspares das suas naturezas… perdidos sem quererem ser achados...
Já cruzei com a mentira, com a falsidade, aquela a que engana, atraiçoa, que não tem começo nem fim, que dilacera, aguilhoa com desdém, até com contornos de perversidade...
Já cruzei com a sinceridade e com aqueles que se dizem “demasiado sinceros” também... com a sinceridade que inunda a alma e me faz crer na vida e nas pessoas... àqueles que se dizem “demasiado sinceros” apelido-os de embustes do ser humano... não existe demasiado sincero, ou se é sincero ou não se é. A sinceridade só tem um peso e uma medida...
E hoje, que tenho hoje? Uma vida que me sorri e me envolve com os seus ensinamentos de todo um percurso caminhado perscrutando, observando e apreendendo todos os possíveis meandros, cantos e recantos do ser humano, em prol da felicidade... a minha felicidade e a dos meus...
Que retive da vida que passou por mim e da vida que agarrei de rédeas nas minhas mãos?
Aprendi que o amor se constrói, se edifica com o saber, com a coragem, a força, a luta diária, o acreditar, o dar e voltar a dar e se mais for necessário, novamente dar...
Que a felicidade nos pertence, que nasceu no dia em que nascemos, que é uma dádiva adquirida à nascença, que vive dentro de nós desde sempre... que emergirá e nos fará sorrir e dizer que experimentámos a felicidade, se e só se tivermos a capacidade de lutar e o querer de querer ser feliz...